Esperanto: Concorrência Zero

Esses dias, na net, encontrei esse artigo que reproduzo totalmente:

 

Artigo publicado na revista Peregrino, Ribeirão Preto – SP, Ano VI, No 1, Maio/2005, p. 10

ESPERANTO: CONCORRÊNCIA ZERO

 

José Carlos Cintra

(cintrajc@sc.usp.br)

            Recentemente, durante a aula inaugural de um curso de Esperanto no Centro Cultural da USP, em São Carlos, indaguei aos alunos qual seria o maior concorrente do Esperanto. Todos responderam que é a língua inglesa. Em seguida perguntei pelo segundo maior concorrente, e a maioria respondeu o espanhol. Perguntado sobre o terceiro, muitos disseram ser o francês.

E aí causei uma grande surpresa ao contestá-los, dizendo que o Esperanto tem concorrência zero, entre as principais línguas do mundo. E por que o Esperanto não tem concorrente algum entre tais línguas?

Desde a sua criação, o Esperanto foi concebido para funcionar como segunda língua de todos povos. Ao ainda menino Zamenhof, que vivia numa região onde se falavam vários idiomas, muito incomodava a ocorrência de desavenças decorrentes do desconhecimento da língua do “vizinho”. E assim, quando aquele jovenzinho começava a imaginar um idioma neutro, para viabilizar a comunicação entre povos com línguas maternas diferentes, já estava presente o ideal da compreensão mútua entre os homens. Ao Esperanto é inerente o conceito de convivência pacífica, de fraternidade, de amizade verdadeira. Alguma outra língua tem característica similar? Não, nenhum concorrente.

Posso testemunhar com vários exemplos sobre essa marca registrada do Esperanto. Quando fui realizar um estágio de um ano, em Nantes, na França, o grupo esperantista local acolheu-me de uma forma extraordinária. Alguém foi a Paris me recepcionar no aeroporto, hospedaram-me enquanto procurava uma moradia (minha família chegaria um mês depois), e até me emprestaram quase toda a mobília necessária para o apartamento alugado.  Mas, sobretudo, me foi de muita valia o fato de me oferecerem prontamente a sua amizade. Recém-chegado a um país estrangeiro, pela primeira vez, já contava com muitos amigos, o que se traduzia em diversos convites para visita, almoço ou jantar, passeios na região, etc. O que eu havia feito para merecer tudo isso? Nada. Apenas me apresentara como esperantista.

Em Guadalajara, no México, o meu hospedeiro esperantista, contatado previamente, foi me buscar no aeroporto. Ao chegar em sua casa, reparei que todos estavam muito bem vestidos. Logo me disseram que estavam de saída para a festa de casamento de alguém muito importante. E me convidaram para ir também. Imaginando que, caso aceitasse, iria atrasá-los, pela necessidade de um banho, trocar de roupa e até passar a roupa, amassada que deveria estar na mala, aleguei cansaço da viagem e declinei do convite. Então eles se foram todos, mas antes me mostraram o quarto, o banheiro e a cozinha, indicando-me a geladeira e colocando-me à vontade para me servir do que quisesse. Muitas horas depois, de madrugada, estava dormindo, quando ouvi barulho e deduzi que estavam chegando de volta. Já imaginaram tamanha confiança? Receber em casa um estrangeiro que acabara de conhecer, entregar-lhe a chave e deixá-lo sozinho por várias horas? O detalhe diferencial é que esse estrangeiro fala o Esperanto. Só isso.

Na Alemanha, um casal de esperantistas aceitou me hospedar. Eles já moravam juntos há algum tempo, sem se casar. Mas estavam planejando um jantar, num restaurante, para convidar os amigos e comemorar a união. Quando chegou meu pedido de hospedagem, eles responderam afirmativamente, mas também me convidaram para fazer uma pequena palestra, durante esse jantar. Obviamente em Esperanto. Com um pequeno detalhe: a data do jantar seria alterada para que coincidisse com minha estada entre eles. Fantástico, não? Isso só ocorre com grandes amigos. E, pelo fato de sermos esperantistas, já éramos grandes amigos, mesmo antes de nos conhecermos.

Outra característica marcante do Esperanto é que se trata do idioma mais democrático do mundo. Com o Esperanto, não há privilégios. Todos o tem como segunda língua. No meio esperantista internacional, ninguém usa a sua língua materna, exceto os casos interessantes de crianças que aprendem o Esperanto desde o “berço”. É a mais pura democracia, no campo da comunicação lingüística. Ninguém tem a vantagem de usar sua língua materna na conversação com estrangeiros. Por esse aspecto também o Esperanto não tem concorrente entre as línguas mais faladas.

Finalmente, o uso do Esperanto em países estrangeiros nos dá uma incomparável sensação de igualdade. Nós não nos sentimos estrangeiros ao nos comunicar em Esperanto, fora do nosso país. Mas, sobretudo, nós não somos recebidos e tratados como estrangeiros. Por quê? Apenas porque somos esperantistas. Alguma outra língua pode nos proporcionar uma sensação dessa? De modo algum.

Essa igualdade no plano pessoal e individual pode ser estendida para as relações entre nações. Por seu neutro, o Esperanto não provoca nenhuma espécie de supremacia cultural de determinado povo. Ao contrário, valoriza as culturas nacionais e contribui para a não-extinção de idiomas nacionais ou locais. Enquanto cada povo criou sua língua (e deve conservá-la), o Esperanto é o idioma que criou o seu povo.

Por tudo isso, pode-se afirmar, sem nenhuma dúvida, que o Esperanto tem concorrência zero. Aprender e divulgar o Esperanto é trabalhar pela paz.

 

José Carlos Cintra é Professor Titular do Departamento de Geotecnia da Escola de Engenharia de São Carlos, da Universidade de São Paulo. Esperantista, ministra curso de Esperanto no Centro Cultural da USP de São Carlos.

 

 

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